Cheguei um dia a pensar em escrever um livro sobre este cidadão, personagem da história empresarial e política cuja imagem foi sempre cercada por histórias e estórias que o tornaram em alguns casos um verdadeiro mito legado por Rio Branco do Sul ao Paraná.
A falta de tempo e outros compromissos, contudo, sempre me impediram de passar para o papel um pouco da vida e obra de Benelli, um personagem que vale a pena ser conhecido por aqueles que o conheceram, outros que ouviram falar, mal ou bem, e aqueles que com ele conviveram uma existência até os 78 anos, quando no último dia 15 de setembro fechou as páginas do seu livro de vida, deixando oito filhos e 14 netos, além de uma herança expressiva economicamente, bem como a lembrança de fatos, muitos dos quais tive oportunidade de testemunhar desde os anos 80.
Quando o conheci era ainda Bento Ilceu Chimelli, empresário do calcário que havia resolvido, com Quielse Crisóstomo, embarcar em uma empreitada na área da comunicação, ficando com o patrimônio do extinto Diário do Paraná, cujo título não conseguiu sequer segurar, mas mantendo um maquinário e arquivos bastante expressivos.
Depois de separar-se de Quielse em uma sociedade política que se iniciara pelos lados de Rio Branco do Sul, Bento Chimelli resolveu montar a Folha de Curitiba, escolheu gente que a seu lado poderiam tocar o projeto e deixou, aparentemente, a impressão de que realmente tinha um sonho que pretendia concretizar com toda segurança.
Empresário bem sucedido, Bento Chimelli não entendia nada de jornal e foi aos poucos apreendendo a conviver com a classe de jornalistas e gráficos, com os quais se envolvia sempre depois das 18 horas, quando encerrava seu expediente lá em Rio Branco do Sul, município onde tinha o complexo de calcário que o tornou um dos mais poderosos do país no setor.
Foi nesse tempo que o conheci, e pelas mãos do meu saudoso amigo José Vicente desembarquei na Folha de Curitiba, fruto do trabalho de vários profissionais como Luiz Augusto Cabral, Renato Lima Torres, Renatinho Barroso, Nestor Baptista, Fernando Fanucchi, Luiz Geraldo Mazza, Maurício Cavalcanti, e tantos outros, além de Aluisio Furman, o braço direito do Bento nos assuntos de oficina gráfica e da redação.
Foram anos em que as histórias e estórias se misturavam a episódios folclóricos, deixando no rastro daquilo que se contava pela cidade e pelo estado a respeito do Bento Chimelli uma imagem que era mais respeitada pelo temor do que realmente pelo poder de convencimento.
Convidado a assumir a direção da Folha de Curitiba, fiquei mais próximo do cidadão que recentemente havia adquirido a Rádio Cultura de Curitiba, do empresário Ervin Bonkoski, e o complexo de comunicação do Bento se instalou na Rua João Negrão, onde foi gradativamente se deteriorando em termos de maquinas e equipamentos.
Sobre esse tempo, também, fui testemunha de muitas histórias e estórias, abrindo para o Bento o contato mais direto com autoridades e políticos com os quais já tinha certa convivência por ser repórter de rádio e televisão.
Um dia, quem sabe, possa contar mais detalhadamente um pouco desse tempo em que no dia de pagamentos dos funcionários da Folha de Curitiba e da Rádio Cultura, extensas filas de funcionários se formavam na casa ao lado da sede das duas empresas, enquanto lá dentro, em modesta sala, Bento dialogava um por um a respeito, pagando ou não naquele dia o suado salário, mas passando uma imagem surpreendente que era de alguém poderoso mandando buscar o dinheiro que pedia por telefone ao Bamerindus da esquina mais próxima, onde tinha telefone direto com o gerente e que era seu de modo exclusivo, tal o seu poder empresarial.
Esse tempo na Folha de Curitiba e na Rádio Cultura, ao lado do Ari Soares, do Dermeval, do Batista, do saudoso Mario Jorge, do Alfeu Cezarini, certamente daria um livro, e sem que pudesse esquecer alguém dos muitos que conviveram conosco um tempo sob as ordens do Benelli.
Aliás, por que esse nome Benelli?
Um dia, dialogando com Bento lá em Rio Branco, repassando os assuntos da semana em relação à Folha de Curitiba, tivemos a ideia de colocar seus recados para autoridades por meio de um espaço no jornal com o nome de “Recado do Benelli”, e o nome Benelli pegou.
E foi adotado, inclusive com registro em cartório tornando-o ainda mais conhecido em um meio onde a comunicação passava a ser veículo junto ao público que o tornou ainda mais popular.
Foi o tempo em que ele mandava recados para o “Arvinho”, que outro não era senão o então governador Álvaro Dias, que o recebia no Palácio, ouvia suas histórias ao lado do Edson Gradia, tendo eu como testemunha, e até aconselhando o governador e não usar meias pretas porque a cor não era recomendável, e como ele, Bento, deveria sempre usar o vermelho.
Na rádio, os programas do Benelli, onde dava seus recados e tocava sanfona, que mais tarde ocuparam praticamente toda a programação porque queria só tocar suas músicas para não pagar a Ordem dos Músicos, com a qual entrara em litígio, Bento Chimelli teve também várias passagens que dariam certamente um livro se viessem em detalhes.
Na política, um dos tempos mais destacados dessa existência foi quando se candidatou a prefeito de Curitiba, em 1985, ganhando espaços no rádio e televisão que ampliaram histórias e estórias em torno desta folclórica figura paranaense.
Na área empresarial, sua empresa continuou sempre em crescimento e ao lado da esposa Regina e do filho Bento Júnior, entre fiéis auxiliares que o acompanhavam, Benelli, como ficou sendo mais chamado, teve, também, muitas histórias que o envolveram, até chegar à campanha para governador de 1990, quando Roberto Requião enfrentou José Carlos Martinez.
Foi nesse tempo em que mais me envolvi na vida de Bento, assessorando suas atuações, o que não era nada fácil, levando-o a apoiar na época, a pedido também do Álvaro Dias, o candidato Roberto Requião.
Tempo difícil, oportunidade em que fui chamado no segundo turno a pedir até auxilio financeiro para garantir a arrancada final de Requião rumo ao Palácio Iguaçu, inclusive usando a Folha de Curitiba ao gosto do freguês político que se mostrou mais tarde um mal agradecido.
Na época, inclusive, eu e Bento fomos alertados de que “O dia do benefício é a véspera da traição”, lição que aprendemos de forma amarga, pois mal foi eleito e Requião, através de um subordinado chamado Tadeu França, apelidado de Dragão Dengoso, praticou contra Chimelli um ato que sequer permitiu fosse negociado, embora os benefícios pudessem ser então transferidos para a população de Rio Branco do Sul.
Bento Chimelli havia construído uma usina, em área de sua propriedade, objetivando abastecer de energia sua indústria de calcário e casas vizinhas, pensando futuramente, dizia, estender tal benefício a toda a população do município, pois foi sempre um conhecido benfeitor.
Em um dos primeiros atos do recém instalado governo Requião, em 1991, o tal de Dragão Dengoso imaginando prestar serviço ao chefe determinou fechar a usina do Bento e, ante sua reação, mandar prende-lo.
Ao lado do Suez Nogueira, na época tivemos enorme trabalho para livrá-lo dos problemas na área da Justiça, enquanto a usina, lacrada por algum tempo, só funcionando mais tarde, deixava Bento mais irritado do que nunca quando ouvia falar em Requião, atribuindo a minha influência seu prestigiamento àquele traidor e ao seu governo.
Como se vê, em se tratando de Bento Chimelli, o Benelli, histórias e estórias não faltam, e um livro pode, ainda, mais adiante, quem sabe, registrar essa passagem quando alguém pretender lembrar o Paraná e seus personagens político-empresariais.
No último dia 15 de setembro, à beira do túmulo de Bento Chimelli, no Cemitério Municipal de Curitiba, ao lado de companheiros como o velho Favoreto, que fazia questão de registrar que ali estava o corpo de um homem trabalhador que se fez por si mesmo e deixa uma fábrica, dirigida com competência por dona Regina, com cerca de 150 operários, e as famílias da região terão, certamente, muito a recordar do “Sêo Bento”, como todos os chamavam.
Conversando com Algaci Túlio, o ex-vereador Geraldo Bobato, o Capitão Betis, seu parente e amigo, e outros que ali estavam, sentimos todos o carinho de gente humilde, muita gente, que fez questão de ir manifestar sua solidariedade à família, pois Bento Ilceu Chimelli deixou um legado histórico sobre o qual prometo escrever, se o tempo me permitir, contando histórias e estórias deixadas pelo Benelli. (Luiz Fernando Fedeger)
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28 de set. de 2011
15 de set. de 2011
Morre Bento Chimelli
Ex-prefeito de Rio Branco do Sul, empresário cuja empresa de calcário era uma das maiores do país, Bento Ilceu Chimelli faleceu nesta quinta-feira (15), aos 78 anos de idade.
Durante toda a vida foi figura polêmica, e até folclórica, por conta das histórias que contavam a seu respeito pelos lados do município onde residia e tinha seus negócios.
Criou para si o nome de Benelli, que o acompanhava em suas participações em programas de rádio tocando sanfona.
Entre vários negócios, Chimelli foi dono da Rádio Cultura de Curitiba e do jornal Folha de Curitiba.
Dizem, inclusive, que comprou a rádio por ela não aceitar tocar suas músicas, mandou os críticos à sua arte embora e, durante um mês, tocou somente suas melodias na programação.
Suas camisas vermelhas vibrantes, bem como os óculos escuros, marcaram época, e compunham o seu marketing político, assunto no qual foi mestre antes mesmo da disseminação do termo.
Na história política de Curitiba chegou a marcar presença concorrendo na eleição de 1985, na qual Roberto Requião acabou sendo eleito prefeito, tendo seu nome sempre envolvido em histórias e estórias que correram o Paraná e o país por ser figura das mais conhecidas, inclusive pela construção de uma usina que em suas terras gerava energia para sua empresa.
Acumulou muitos amigos na vida, e desafetos, justamente por seu jeito único de ser.
Debilitado e doente, Chimelli estava afastado da vida política há anos.
Com sua morte, desaparece um verdadeiro mito de nossa história política e empresarial. (Foto - Blog do José Wille)
Durante toda a vida foi figura polêmica, e até folclórica, por conta das histórias que contavam a seu respeito pelos lados do município onde residia e tinha seus negócios.
Criou para si o nome de Benelli, que o acompanhava em suas participações em programas de rádio tocando sanfona.
Entre vários negócios, Chimelli foi dono da Rádio Cultura de Curitiba e do jornal Folha de Curitiba.
Dizem, inclusive, que comprou a rádio por ela não aceitar tocar suas músicas, mandou os críticos à sua arte embora e, durante um mês, tocou somente suas melodias na programação.
Suas camisas vermelhas vibrantes, bem como os óculos escuros, marcaram época, e compunham o seu marketing político, assunto no qual foi mestre antes mesmo da disseminação do termo.
Na história política de Curitiba chegou a marcar presença concorrendo na eleição de 1985, na qual Roberto Requião acabou sendo eleito prefeito, tendo seu nome sempre envolvido em histórias e estórias que correram o Paraná e o país por ser figura das mais conhecidas, inclusive pela construção de uma usina que em suas terras gerava energia para sua empresa.
Acumulou muitos amigos na vida, e desafetos, justamente por seu jeito único de ser.
Debilitado e doente, Chimelli estava afastado da vida política há anos.
Com sua morte, desaparece um verdadeiro mito de nossa história política e empresarial. (Foto - Blog do José Wille)
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