“Se a fotografia não ficou boa, é porque o fotógrafo não estava suficientemente perto do fato” Robert Capa (1913-1954), fotógrafo húngaro A imagem das autoridades na festança no meio da rua com um bicho morto que parece voar sobre as cabeças é insólita, e por isso chama tanta atenção. O eleitor não está acostumado a ver políticos fatiando um animal, como se fatiassem o próprio poder. Na parte superior da foto aparece o porco, sem olhos ou pelos. Serve-se depois de varado no espeto e assado por mais de seis horas. A imagem é triste, mesmo para quem gosta de carne. O bicho está abatido, com machucados ao longo do corpo e sangue à mostra. Na parte inferior da foto, aparecem três políticos, todos — pela cara de satisfação — dispostos a se fartar com a carne do bicho: os deputados federais Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) e Marco Maia (PT-SP), comandante da Câmara, e Michel Temer (PMDB), vice-presidente da República. O que segura o facão é Paulo Pereira, também conhecido como Paulinho da Força — uma referência à central sindical da qual é presidente. Foi ele quem organizou a festança, na realidade uma recepção a sindicalistas que vieram a Brasília participar de uma manifestação política. A foto mostra homens de partidos diferentes — todos da base, evidentemente, mas de siglas distintas — fatiando um porco. Na cabeça do eleitor, quase nunca com acesso a festanças de autoridades, a cena pode representar mais do que isso. Eles estariam, na verdade, fatiando o próprio poder. O evento em questão ocorreu em área pública na Asa Norte e reuniu 200 pessoas — das quais as mais importantes eram Paulinho, Maia e Temer, além dos ministros do Trabalho, Carlos Lupi, e da Previdência, Garibaldi Alves, e do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Bicho voador A fotografia das autoridades na festança no meio da rua com um porco que parece voar sobre as suas cabeças é insólita, e por isso chama tanta atenção. No quadro, Michel Temer aparece colocando um pedaço de carne na boca, depois de deixar as atividades formais na Esplanada. Maia, por sua vez, parece se esforçar para entrar na fotografia. Mas não mira a câmara, olha em direção ao facão utilizado por Paulinho para cortar o porco. Esperava o próximo pedaço. Tudo estava bem, mas havia um detalhe: a música alta, os fogos e a confusão no estacionamento da quadra, entre os blocos I e J da SQN 202, incomodaram os moradores. E mais: a festança não estava autorizada. Reportagem do Correio publicada um dia depois mostrou que a farra foi irregular. A farra — vamos usar o termo no sentido de festa — não teve a permissão da Administração de Brasília para ser realizada. O responsável por tal autorização, Sebastião Alves, da Diretoria de Serviços do órgão, disse que não emitiu qualquer licença. Parece até mera burocracia, mas autorizações para tais atividades são necessárias, com pareceres das polícias Civil e Militar, além de uma análise do Corpo de Bombeiros. Com a festa encerrada, uma equipe da Administração vai até o local checar se houve algum dano ao patrimônio público. Ninguém bom da cabeça pode ser contrário a festas. Qualquer comemoração vale a pena, pois. Mas há hora e lugar para tal coisa. E, convenhamos, festejar ao mesmo tempo em que existe alguém incomodado não é uma das coisas mais divertidas, mesmo para os que riem e se fartam. Nome do autor A foto do porco no rolete é de Ronaldo de Oliveira, deste Correio. Ronaldo foi o cara certo na hora certa. Conseguiu fazer a imagem depois de sair do jornal para apurar reclamações dos vizinhos da festa, incomodados com o barulho e com a fumaça produzida pela "farra dos poderosos", como registrou a manchete do jornal. O fotógrafo húngaro Robert Capa dizia que se a fotografia não ficou boa, é porque o autor não estava perto o suficiente da cena. Ronaldo estava lá, perto. A foto não poderia ser melhor. (Leonardo Cavalcanti – Correio Braziliense) |
11 de jul. de 2011
Nas entrelinhas do porco no rolete
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